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O Irã e a revolta das mulheres iranianas

A morte de Mahsa Amini no dia 16 de setembro, aos 22 anos, foi o estopim para as maiores manifestações populares vistas nos últimos 13 anos no Irã. E o assassinato da jovem nos possibilita analisar de forma mais profunda a situação do país que vive sob um regime teocrático desde a Revolução Islâmica de 1979. Este evento singular na história mundial é de suma importância para a compreensão da realidade desta nação localizada no Golfo Pérsico.


Manifestações ocorrem em várias cidades do país após a morte de Mahsa Amini (Crédito: Allison Bailey/NurPhoto/AFP)

Para isso, precisamos voltar um pouco no tempo. Tudo começa em 1978, após mais de duas décadas vivendo sob a ditadura do Xá Mohammad Reza Pahlavi, quando um movimento por mudanças começa a tomar forma. A insatisfação era tamanha que os grupos mais distintos da sociedade se juntaram numa tentativa de mudança, incluindo nesta mescla grupos marxistas e religiosos. Contudo, uma liderança sempre foi clara, a do Aiatolá Ruhollah Khomeini. Sua figura foi central em todo processo de sublevação social que resultaria na revolução e o levaria ao poder.


O líder religioso já demonstrava em seus escritos a sua visão para o Irã na qual a relação entre Estado e religião era indissociável. Esta perspectiva sempre teve em seu cerne o Alcorão como guia, a sharia como instrumento e Khomeini como a pessoa capaz de guiar a transformação. Dentro desta ideia mais ampla existiam visões messiânicas xiitas sobre o futuro da sociedade iraniana, um pensamento antiocidental e uma hostilidade perante o Xá e os valores que ele representava.


Neste quesito tem de ser ressaltado o papel dos Estados Unidos, que tinha o Irã como principal aliado na região e o apoiava de forma irrestrita. Exatamente por isso, após os eventos em 1979 passa a ser visto como o grande inimigo e ganha a alcunha de Grande Satã. Desde a Revolução, o Irã vive sob um sistema teocrático que teve como líder supremo o próprio Khomeini entre os anos de 1979 e 1989 (ele ficou no poder até a sua morte) sendo substituído por Ali Khamenei que está na principal posição do país desde então.


Retomando o ponto central, o falecimento da jovem Mahsa a veio a ocorrer sob a custódia da Polícia dos Costumes, uma força de segurança que vem a ser a polícia moral e que tem como um dos seus propósitos a aplicação do código de vestimentas. Que tem relação direta com o Islã puro e original citado anteriormente. Os agentes que fazem parte deste grupamento interpretaram que Mahsa não estava vestindo o hijab de forma adequada e a levaram presa. Enquanto estava encarcerada, ela morreu de maneira suspeita. Estava claro para muitos que ela vinha a ser mais uma vítima do sistema repressivo na República Islâmica do Irã.


O que começou como um protesto pela morte brutal de uma jovem iraniana se transformou numa forma de expressar todo o descontentamento com a situação política, social e econômica. Este cerceamento de liberdade afeta profundamente um país que tem uma imensa população jovem que está distante da Revolução e das mudanças que ele trouxe. Seus pais podem ter vivido todo o processo e entendê-lo de outra forma, mas muitos dos envolvidos nos protestos sentem de forma demasiada a opressão estatal. A sua vontade não é de um novo líder, mas sim de uma nova forma de governo.


Nasibe Samsaei, iraniana que vive na Turquia, corta seu cabelo durante um protesto do lado de fora do consulado iraniano em Istambul. (Crédito: Yasin Akgul/AFP via Getty Images)

As demonstrações atuais são as maiores e mais relevantes desde a Revolução Verde de 2009. Todavia os protestos que estão acontecendo agora têm uma diferença fundamental dos que ocorreram em 2009. Este fator vem a ser as redes sociais. Elas têm um papel central na mobilização da população, assim como na capacidade de alcançar os pontos mais remotos do país. Enquanto as manifestações da primeira década dos anos 2000 ficaram restritas às grandes cidades do Irã, o movimento atual se espalhou rapidamente país afora.


O governo, por seu lado, não dialoga com a população para entender as suas motivações e anseios. Ele prefere colocar a “culpa” dos levantes populares em inimigos estrangeiros, apontando o dedo para Estados Unidos. Concomitantemente, para evitar que qualquer voz dissidente possa ser escutada e reforce que o problema é interno e que deve ser uma solução local, a polícia realizou a prisão de mais de 41 jornalistas, segundo a organização Repórteres sem Fronteiras.


O distanciamento dos clérigos com a população é tamanha que ao invés de escutarem os clamores das ruas, eles preferem entrar numa guerra de narrativas ao usar de certos artifícios para distorcer a motivação dos protestos e associar os que participam deles com organizações como o Estado Islâmico.


As mudanças que têm ocorrido mundo afora são sentidas profundamente no Irã; ainda mais com uma população jovem, como foi falado antes. Contudo, os clérigos que dominam o cenário político estão atrelados a outro tempo e a outras ideias, as quais precisam ser repensadas para que, quiçá, eles possam se manter no poder. Entretanto, estes setores da sociedade têm seguido caminhos distintos e o abismo entre as visões sobre o futuro do país só aumenta. O governo segue com sua ferrenha repressão, sem querer perceber que as forças da mudança não têm como ser paradas. Ou eles entendem o momento histórico que vivem ou podem vir a ser engolidos por ele.


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