O que nos leva a ingressar no trabalho humanitário?

Sempre que tenho uma boa conversa com alguém, ou muitos, fico refletindo sobre o que falei demais e não deveria e sobre o que deveria ter dito e não disse.

Da deliciosa conversa de ontem com

e um grupo de pessoas especiais que o apoiam, onde o tempo parecia sem fim, uma pergunta não me saiu da cabeça: “o que dá o clique entre sensibilizar-se e agir?”

No meu caso, lembro bem que já estava muito indignado com a invasão da Ucrânia e queria fazer algo. Sou muito do fazer, não consigo ficar parado. Quando a Mari, CEO da VVolunteer, me falou da missão na Ucrânia, foi apenas um comentário, não um convite, pois só ia gente experiente. Eu perguntei se poderia ir como carregador de malas dela.



Lembrei quando estava no Rio, sem trabalho e numa baita crise existencial e financeira, que a Associação de Moradores de São Conrado quis fazer uma grande reunião com outras associações de moradores das comunidades do entorno para discutir a segurança dos bairros. Eu me propus a coordenar aquela reunião, no então hotel Intercontinental. Dali, saí com um pequeno grupo de arquitetos e a ajuda de associações da Rocinha, para desenvolver um plano de urbanização daquela comunidade. Tenho várias histórias e boas recordações da nossa luta conjunta para implantar algo revolucionário na época.



Mas o clique, e o clique? Lembro então que sou filho de um médico católico que cobrava a consulta mais barato que os outros médicos e trabalhava dobrado, para poder atender mais gente. Não cobrava muito de quem podia pagar muito e dava consultas gratuitas para os pobres. Cobrava igual de todos, mas um preço que todo mundo podia pagar. Nunca foi rico, mas nos deu uma vida boa.

E o clique? Lembro que fui educado dentro do catolicismo, mas só me tornei um católico espiritualizado quando estudei um pouco a Bíblia, por causa do meu gosto de estudar história. Pude perceber a beleza da sua mensagem. Mais ainda, quando morei no Canadá, com 23 anos, recém-formado e longe de todo mundo que gostava, comecei a desenvolver a minha própria relação com Deus. Ele tornou-se então meu amigo e companheiro de todas as horas. Um outro momento marcante foi quando, em 1986, visitei Assis e senti a energia de São Francisco, de quem li um livro excepcional sobre seus momentos de angústia.

Para de enrolar e fala do clique.

A resposta para essa desafiadora pergunta continua sendo: não sei. Acho que é preciso ter momentos de redução do nosso ritmo diário. Como o budismo ensina, parar de verdade alguns 10 minutos diários e voltar-se para dentro. E, nesse exercício diário de percepção de si mesmo, a gente começa a conhecer nossas fraquezas, nossos medos e nossas sombras. Então a gente começa também a ficar sensível ao outro. E aí, a cada dia, vamos perceber que encontramos, todos os dias, um próximo que precisa de nós. Não importa se é o ucraniano ou o iemenita ou o sírio ou o afegão refugiado, ou a família pobre de Piancó, ou o mendigo desassistido ou a nossa filha ou esposa ou parente que precisa de um cuidado especial.

E aí percebemos esse Deus ao nosso lado, esse ser supremo a quem damos várias identidades conforme ele se manifesta em nossas vidas, feito de amor e luz a nos lembrar nossa origem e nosso destino. E, junto em Ele, só nos resta agir para aliviar o sofrimento do nosso irmão.











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