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Retrospectiva Humanitária de 2021

Recentemente, o portal de jornalismo humanitário The New Humanitarian publicou a “Retrospectiva Humanitária de 2021”. A VV analisou, destrinchou e resumiu o artigo para trazer aqui os principais acontecimentos do mundo humanitário e social no ano que passou. Vamos a eles.


JANEIRO

COVID-19: o destaque nesse mês foi o início da vacinação global e as disparidades sociais relacionados à vacina. O ano começou com o lançamento de vacinas, no entanto, um alerta foi feito contra a iniquidade na distribuição delas. Os países ricos recolheram os suprimentos mais cedo, causando escassez nos países mais pobres. Isso colocou as pessoas que vivem em regiões menos desenvolvidas e em emergências humanitárias especialmente em risco. No fim das contas, vimos ainda que isso acarretava no desenvolvimento de novas cepas que vieram a ameaçar o mundo todo. O “apartheid da vacina”, como ficou conhecido, foi um drama e uma lição humanitária.


FEVEREIRO

Golpe Militar em Mianmar: um golpe militar deu início a uma nova volatilidade para as operações humanitárias em um país que há décadas convive com a instabilidade social e política. O acesso humanitário que já era bastante prejudicado devido ao antigo governo liderado por Aung San Suu Kyi, piorou ainda mais para grupos de ajuda locais e internacionais que tentaram atuar no país após o golpe. A antiga Prêmio Nobel da Paz e heroína da luta pela liberdade tornou-se um triste símbolo do preconceito e, mais uma vez, se viu do outro lado de um governo militar.


MARÇO

Dez anos de guerra na Síria: março marcou 10 anos de uma guerra que se iniciou com protestos contra o presidente Bashar al-Assad em março de 2011. Um conflito marcado pela fome, bombardeios, ataques químicos, destruição de hospitais, patrimônios históricos e a manipulação da resposta humanitária. A maioria dos 6,6 milhões de sírios refugiados permanece em países vizinhos na condição de refugiados de guerra e/ ou perseguição religiosa. Outros 6,7 milhões de sírios estão deslocados internamente (IDP), vivendo em campos ou abrigos.


Incêndio em Bangladesh: março foi o mês em que, infelizmente, um incêndio se espalhou pelos campos de refugiados de Rohingya em Cox's Bazar, Bangladesh, deslocando pelo menos 45.000 pessoas. 10.000 casas foram destruídas ou danificadas.


Foto: arquivo VV - Michel Coeli


ABRIL

Sudão: uma nova rodada de violência estourou em Darfur Ocidental, levando as autoridades a declararem estado de emergência e apelar por ajuda do governo para lidar com as consequências humanitárias. O governo então declarou não ser capaz de lidar com a escala do deslocamento – foram mais de 100.000 pessoas deslocadas. A ONU estimou que mais de um quarto da população precisaria de assistência humanitária em todo o país. As explicações sobre os motivos da violência diferem. Por um lado, acusam as milícias de intensificar os ataques com a retirada da missão de paz da ONU em dezembro de 2020, após 13 anos no local. Outros culparam a difícil transição política do Sudão o que polarizou as comunidades e alimentou a insatisfação entre as elites locais.


MAIO:

Tensão em Gaza: a região viveu 11 dias de ataques aéreos israelenses em Gaza e disparos de foguetes contra Israel. Ao todo pelo menos 280 pessoas, foram mortas, a imensa maioria de palestinos. Os ataques atingiram a infraestrutura civil fundamental para a sobrevivência em Gaza, e para a manutenção de hospitais e instalações sanitárias. Cerca de 4.000 lares foram destruídos ou danificados, o que prejudicou ainda mais uma economia prejudicada por várias guerras e pelas severas restrições impostas por Israel. A escalada da violência, a pior desde a Guerra de Gaza de 2014, ocorreu após semanas de protestos contra as restrições à oração em Jerusalém durante o mês sagrado muçulmano do Ramadã.


JUNHO

Refugiados na União Europeia: 2021 passou a ser um ano recorde em termos de número de requerentes de asilo e migrantes interceptados. Milhares de interceptações e mortes no Mediterrâneo ocorreram. Em meados de junho, quase 13.000 pessoas foram interceptadas - já ultrapassando o total de 2020. O número de requerentes de asilo e migrantes que morrem no mar também deve ser o maior desde 2017. Em meados de dezembro, quase 31.500 pessoas foram interceptadas pela Guarda Costeira da Líbia, apoiada pela UE, e mais de 1.500 morreram ou desapareceram no mar. Esses números são a consequência da abordagem europeia para tentar impedir a migração da Líbia, que alimenta um ciclo de interceptação, detenção e abuso no país, deixando milhares de pessoas morrendo afogadas no mar.


Sahel: no início de junho, ocorreu o incidente mais mortal em seis anos de escalada da violência jihadista em Burkina Faso. Pelo menos 160 pessoas foram massacradas na aldeia de Solhan, com o governo e a ONU descrevendo muitos dos agressores como crianças-soldados com idades entre 12 e 14 anos. Em todo o Sahel, 2021 viu uma continuação da violência jihadista que viu milhões de pessoas deslocadas nos últimos anos.


JULHO

Líbano: a crise econômica segue afetando o país, mais da metade da população libanesa vive hoje na pobreza. O primeiro-ministro interino do Líbano, Hassan Diab, advertiu que o país estava a dias de uma "explosão social", com muitas pessoas sofrendo de um colapso econômico devastador, já que a moeda atingiu novas baixas, perdendo 90 por cento de seu valor desde outubro de 2019. Ao longo do ano, a pobreza disparou, os bancos limitaram severamente a retirada de dinheiro de contas pessoais e itens básicos - como alimentos e produtos de época - tornaram-se inacessíveis. A ajuda humanitária tem sido uma necessidade para os 1,5 milhão de refugiados sírios e centenas de milhares de refugiados palestinos no Líbano.


AGOSTO

Afeganistão: Talibã retomou o país após 20 anos. Grupos de ajuda humanitária no Afeganistão interromperam temporariamente as operações enquanto lutavam para trabalhar após o colapso. Para alguns afegãos, o retorno do Talibã ao poder desencadeou uma corrida frenética para as saídas. A maioria que permaneceu viu a economia e o setor de saúde pública desmoronar com o congelamento e as sanções de financiamento de doadores. Grupos de ajuda temiam o pior, especialmente para as mulheres, com quase toda a população enfrentando a pobreza e uma grave crise de fome às portas.


Foto: Defense One/Handout via Reuters


Haiti: Semanas após o assassinato do presidente Jovenel Moïse agravar a já terrível e instável situação humanitária do Haiti, um terremoto de magnitude 7,2 em 14 de agosto matou mais de 2.200 pessoas no sul do país- uma área que ainda se recuperava do furacão de 2016. Em paralelo, um aumento severo da violência e sequestros de gangues locais prejudica a chegada da resposta humanitária. Algumas organizações suspenderam as operações devido ao aumento da violência e sequestros, enquanto quase um em cada dois haitianos precisa de apoio humanitário.


SETEMBRO

Congo: um relatório de uma comissão independente descobriu que a Organização Mundial da Saúde (OMS) falhou em prevenir e combater o abuso sexual generalizado durante a resposta ao Ebola no Congo – como mostra uma investigação iniciada pelo The New Humanitarian e a Thomson Reuters Foundation. Os investigadores da comissão confirmaram que as mulheres receberam a promessa de empregos em troca de "relacionamentos" ou foram exploradas sexualmente para manter seus empregos. Tedros Adhanom Ghebreyesus, diretor-geral da OMS, disse que assumiu a responsabilidade “final” pelas falhas. A OMS prometeu posteriormente revisar sua cultura e operações, prometendo que medidas seriam tomadas para apoiar os sobreviventes e suas famílias, e alocando US $ 7,6 milhões iniciais para fortalecer sua capacidade de prevenir, detectar e responder a alegações de abuso sexual em 10 países.


OUTUBRO

América Central: dezenas de milhares de pessoas em situação de refúgio devido a pobreza, conflitos, desastres e regimes abusivos, realizaram a travessia entre a Colômbia e o Panamá a caminho dos EUA. Impulsionados pelas pressões econômicas induzidas pelo COVID e pela dificuldade de regularizar sua situação em países como o Chile. Até 100.000 pessoas teriam chegado ao Panamá em outubro. Esse aumento piorou a pressão sobre as instalações já sobrecarregadas em Necoclí, a principal estação de passagem no noroeste da Colômbia. O governo colombiano classificou a situação de “tragédia humanitária”. Os migrantes, especialmente do Haiti, enfrentaram a xenofobia crescente e políticas cada vez mais hostis na América do Sul.


COP26: um impulso humanitário nas necessidades climáticas. Delegados de 197 nações começaram a cúpula do clima da ONU, a COP26, em 31 de outubro desse ano. O encontro terminou duas semanas depois com um documento final que apontou para as metas de emissões, mas falhou ao não conseguir resolver as questões financeiras tão críticas para as nações que já sofrem os efeitos desastrosos da mudança climática. O encontro foi uma espécie de ponto de inflexão para os humanitários (o MSF participou pela primeira vez) em termos de defesa de uma ação climática mais forte e abrangente - especialmente no aspecto financeiro.


NOVEMBRO

Bielorrússia-UE: milhares de requerentes de asilo e migrantes do Oriente Médio, Afeganistão e África tornaram-se “peões” em uma disputa geopolítica. O presidente autoritário da Bielorrússia, Lukashenko, tentou intensificar as profundas divisões políticas na EU quanto à política de migração para seu benefício político. Ele privilegiou vistos para candidatos a asilo e migrantes para a Bielorrússia e conduziu-os para as fronteiras da UE. Em meio à disputa política, os refugiados em situação de vulnerabilidade pagaram o pato ficando expostos e feitos de joguete político.


Iêmen: ataque rebelde a Marib. A ofensiva rebelde Houthi na cidade controlada pelo governo forçou cerca de 15.000 pessoas a fugir somente no mês de novembro - a última reviravolta em mais de seis anos e meio de uma guerra que deixou, segundo estimativas da ONU, mais de quatro milhões de pessoas deslocadas em todo o país.


DEZEMBRO

Etiópia: as forças rebeldes de Tigray pediram um cessar-fogo imediato após se retirarem das cidades nas regiões de Amhara e Afar em meio a uma ofensiva do governo que mudou drasticamente o equilíbrio do conflito de 13 meses na Etiópia. O conflito começou em novembro de 2020, após meses de tensão entre o governo e a Frente de Libertação do Povo Tigray, que dominou a política nacional da Etiópia por décadas, até que o primeiro-ministro Abiy Ahmed assumiu o cargo em 2018. Mais de nove milhões de pessoas precisam de ajuda em todo o norte da Etiópia, e as organizações de ajuda tiveram que negociar desafios para o acesso ao longo do ano.


Como deu para ver, foi um ano atravessado por uma pandemia persistente e que ainda foi recheado de situações de crises econômicas, conflitos, refugiados, dramas climáticos, perseguição étnica, extremismo religioso... Que o próximo ano seja mais leve. Pelo menos para aqueles que são mais afetados por todas essas questões. Da nossa parte, seguiremos fazendo a nossa parte por um mundo melhor e mais justo. Se quiser fazer parte da mudança, vem com a gente.

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